COMUNIDADE SÃO RAFAEL É TEMA DE MESA NO RAMICS NA FGV NO RIO DE JANEIRO


Daniel Pereira dos Santos, fundador do Banco Comunitário Jardim Botânico da Comunidade São Rafael, em João Pessoa (PB), levou ao Rio de Janeiro a experiência pioneira que integra geração fotovoltaica com a moeda social Orquídea (O$) para enfrentar a pobreza energética e fortalecer a economia solidária.

A 8ª Conferência Internacional da RAMICS (Research Association on Monetary Innovation and Community and Complementary Currency Systems), realizada entre 8 e 10 de junho de 2026 no Centro Cultural da FGV, no Rio de Janeiro, dedicou um de seus painéis à inovadora experiência da Comunidade São Rafael. Na manhã do dia 10 de junho, no auditório da FGV, dentro do eixo temático "Energia e Território", Daniel Pereira dos Santos apresentou o projeto "Orquídea Solar: Integrando Geração Comunitária de Energia e Moeda Social para Combater a Pobreza Energética".

A iniciativa nasceu da articulação entre a Universidade Federal da Paraíba (UFPB), a Fundação Getulio Vargas (FGV), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Lund University, da Suécia, mas tem na Comunidade São Rafael seu laboratório vivo. Lá funciona o Banco Comunitário de Desenvolvimento Jardim Botânico (BCDJB), criado em 2013, que já emitia a moeda social Orquídea para circular entre pequenos negócios locais. Com a chegada da usina solar comunitária, o modelo ganhou um novo patamar: os créditos gerados pelos painéis fotovoltaicos são convertidos em moeda social, devolvidos à comunidade como recurso para compras no próprio território.

Na prática, a economia obtida na conta de luz do Instituto Voz Popular, já chega a 60% de redução. Esse valor, em vez de evaporar como simples economia, é transformado em moeda Orquídea e injetado no comércio local. “A energia solar é mais uma forma de fortalecer o trabalho que vem sendo feito e melhorar a vida dos moradores. Se podemos distribuir energia para alguns moradores, diminuindo a conta, esse dinheiro economizado pode ser investido na melhoria da vida e na economia da comunidade”, explicou Daniel Pereira durante sua fala.

A proposta vai além do assistencialismo. Ela costura dois pilares da sustentabilidade, energia renovável e economia solidária, com um terceiro elemento fundamental: a autonomia comunitária sobre os meios de troca. Enquanto a usina atual gera cerca de 1900 kW por mês, a meta é multiplicar essa capacidade por dez, levando o benefício para dezenas de famílias do bairro Castelo Branco, onde fica a Comunidade São Rafael.

O público presente, composto por pesquisadores de moedas sociais do mundo inteiro, destacou a singularidade do caso brasileiro: poucas iniciativas no planeta combinam geração distribuída de energia, moeda social e gestão comunitária de crédito de forma integrada. A apresentação de Daniel Pereira dividiu espaço com outras experiências como a moeda Palma, do Ceará, e a integração de energia comunitária e economia solidária debatida em mesa posterior.

O RAMICS 2026, cujo tema central é "Pluralidade das Moedas Sociais: economia solidária, moedas municipais e comunitárias para futuros inclusivos e sustentáveis", mostrou mais uma vez que as soluções para a transição energética justa não virão apenas de cima para baixo. Como demonstrou a Comunidade São Rafael, é possível transformar raios de sol em movimento econômico local, e fazer isso com a força da organização comunitária, sem esperar por grandes corporações ou governos distantes. A Orquídea Solar floresceu na Paraíba e agora inspira o mundo.

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